As velas não são todas iguais


À luz das velas


O estado de espírito e o olfacto estão intimamente ligados.


Esta conexão acontece porque as moléculas odoríferas são capturadas, dentro do nariz, nas fossas nasais, revestidas por uma membrana mucosa, e aí existem terminações nervosas que recolhem as sensações olfativas.


Os sinais recebidos podem interagir com uma parte do cérebro denominada sistema límbico (cérebro emocional) e afetar as emoções, os pensamentos e a memória.‌


Encontrar o perfume perfeito para a casa é um ritual imprescindível para muitos.

Sabemos que desfrutamos de um momento de intimidade e que podemos relaxar quando acendemos uma vela. Chegamos muitas vezes a usar velas diferentes para as diferentes estações do ano ou momentos do dia e até gostamos de as combinar com a decoração.

Acender uma vela numa noite fria e sombria pode mesmo fazer milagres!

A importância das velas é tanta, que “desmancha-prazeres” diz-se, em dinamarquês, lyseslukker, que pode ser traduzido por “aquele que apaga as velas”.

No entanto, embora as velas sejam aconchegantes e sinónimo do hygge (palavra dinamarquesa que significa a arte de criar aconchego e conforto no lar), as velas tradicionais podem, infelizmente, libertar substâncias químicas para o ar, causando danos potenciais em si e no Planeta.



Que velas tem em casa?


Velas vegetais, vegan ou convencionais?

Se pensa que as velas são feitas basicamente do mesmo, então, está muito enganado.


Comecemos pelo início: durante o Império Romano, em 500 a. C., usava-se o sebo (gordura animal de ovelhas ou vacas) para velas. Havia certamente uma economia de resíduos, mas estas velas não cheiravam particularmente bem. (Estavam muito longe das velas com aroma a canela ou baunilha a que estamos hoje habituados…)

Mais tarde, o Império Chinês descobriu a funcionalidade do óleo de cachalote e da cera de abelha, ainda produtos animais, mas bastante melhores do que o sebo. As velas estavam acondicionadas em tubos de papel e tinham pavios de papel de arroz. Verdadeiramente ecológicas!

Nos templos na Índia, usava-se canela e, no Tibete, a manteiga de iaque na confeção das velas.

As velas que temos em casa (se não a maioria) são feitas de cera de parafina, que é um derivado do petróleo, do carvão ou do óleo de xisto.
Fotografia: Sixteen Miles Out/Unsplash

Hoje em dia, muitas das velas que temos em casa (se não a maioria) são feitas de cera de parafina, que é um derivado do petróleo, do carvão ou do óleo de xisto. A parafina é uma mistura de hidrocarbonetos saturados, apresentada na forma sólida. É a matéria-prima por excelência da produção de velas, porque possui cor branca (depois de ser branqueada), não tem odor ou gosto e preserva melhor o cheiro das velas com aroma.

O que é mesmo a parafina? Como é produzida?


A parafina é o último subproduto do petróleo: o que resta no fundo de um barril de petróleo, que é rejeitado pela indústria de petróleo e gás.

Antes de a indústria química saber refinar essa substância espessa, negra e tóxica, ela já era usada como cera na década de 1830 (denominada cera de petróleo).

A cera de parafina foi introduzida na década de 1850, quando se descobriu a forma de separar e refinar a cera do petróleo. Durante o processo de refinamento, a cera de petróleo é branqueada, para que fique esteticamente mais apelativa, sendo ainda adicionados produtos químicos para aumentar o ponto de fusão e a vida útil das velas.

A cera de parafina é, então, vendida aos fabricantes de velas, que adicionam outros produtos químicos, como aromas e corantes.

Resumindo, a parafina é um subproduto do petróleo, do carvão ou do xisto branqueado em lixívia industrial, repleta de dioxinas. Além disso, a acroleína (um composto químico relacionado com o risco de cancro do pulmão) é adicionada à cera como agente de solidificação.


Quando a cera começa a queimar, são libertados componentes tóxicos, como a acetona, o benzeno e o tolueno, todos conhecidos como agentes cancerígenos, afetando não só a saúde humana como o meio ambiente.

A fuligem e os gases libertados pela parafina são muito semelhantes aos libertados por um motor a diesel. É muito insalubre, especialmente para quem sofre de alergias ou problemas respiratórios, como a asma.


E as velas que cheiram bem?


Se, a esta mistura de parafina e outros compostos químicos, adicionarmos corantes artificiais e fragrâncias sintéticas, com plastificantes e solventes tóxicos, estamos perante uma “mistura explosiva”. As velas perfumadas são muito populares no momento, mas não são as melhores para a saúde. Sabe-se atualmente que as velas perfumadas são particularmente tóxicas.

Muitos fabricantes de velas adicionam fragrâncias artificiais e corantes à cera de parafina
Fotografia: Noelle Australia/Unsplash

Muitos fabricantes de velas adicionam fragrâncias artificiais e corantes à cera de parafina para dar uma aparência mais atrativa. Usam-se produtos químicos para texturizar a cera, corantes artificiais para dar cor e fragrâncias sintéticas para criar cheiros “agradáveis”.

Esses aditivos são tóxicos e muito insalubres, especialmente quando queimados, pois libertam gases tóxicos.



Se gosta de velas aromáticas, pode continuar a usá-las, porque nem todas apresentam um risco para a saúde. Se escolher velas com ingredientes naturais, a sua segurança está garantida. As velas aromáticas com substâncias bioativas da soja ou da cera de abelha não são prejudiciais, uma vez que não libertam substâncias tóxicas durante a queima.


É aconselhável que sejam também aromatizadas com óleos essenciais, extraídos de plantas. Para que tudo corra bem, olhe para a lista de ingredientes e evite a palavra “parafina”. Não se esqueça: os fabricantes de velas utilizam este tipo de cera por ser a mais económica e por reter melhor o cheiro das velas aromáticas.


Têm sido feito diversos estudos sobre as consequências à exposição a velas de parafina e uma das vozes é a de Peter Møller, professor do Instituto de Ciências da Saúde Pública da Universidade de Copenhaga, co-autor de um estudo sobre os efeitos da exposição à parafina, que sugere que as partículas das velas parecem ser tão ou mais nocivas do que as partículas de diesel.


Mesmo os pavios podem ser nocivos: muitas velas ainda têm chumbo ou outros tipos de metais no seu núcleo, para que o pavio se mantenha na vertical. E quando se adiciona metal quente a um recipiente já repleto de produtos químicos, mais substâncias tóxicas são libertadas. Sabendo disso, é melhor procurar pavios 100% de algodão ou de madeira.


Em 2017, foi publicado um estudo controverso — Some candles emit hazardous materials for human health and are indoor air pollutants — de Ruhullah Massoudi e Amid Hamidi (da Universidade do Estado da Carolina do Sul), que concluiu que as velas com parafina libertam fumos perigosos, que estão associados ao cancro do pulmão e à asma, porque existe o risco de pequenas partículas libertadas, se inaladas, se alojarem nas vias respiratórias e nos pulmões. 


Alguns estudos posteriores parecem pôr em causa este estudo; no entanto, é inquestionável que o uso de velas aromáticas de parafina pode ser prejudicial para aqueles que têm as vias aéreas inflamadas, como pessoas com asma ou alergias, podendo causar dores de cabeça, espirros, corrimento nasal, etc.


Além das velas, deve ter-se especial cuidado com o uso de incensos. A Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO) revelou que este produto é perigoso para a saúde, porque liberta substâncias nocivas, chegando mesmo a compará-lo com o tabaco: um pau de incenso pode libertar tanto benzeno como cinco cigarros.


Embora seja difícil encontrar velas feitas de forma sustentável, não desista.


Primeiro, procure uma cera vegetal feita de substâncias como soja, cera de abelha ou coco, e certifique-se de que a vela é 100% da cera que procura. Há marcas que comercializam as suas velas como sendo feitas com uma determinada cera, mas usam uma mistura com parafina.


Muitas velas tradicionais são misturas que contêm uma mistura de óleo de palma, parafina e soja. Por isso, é aconselhável procurar velas que indiquem claramente “100% de cera de soja" e que seja cauteloso com os rótulos, já que "'vela de soja” é diferente de “cera 100% de soja".


Com tantas formas ardilosas de adicionar ingredientes insustentáveis, é aconselhável procurar velas com a indicação 100% cera de abelha, 100% cera de soja ou 100% cera de coco no rótulo. Se essa informação não estiver visível, é porque provavelmente contêm um ingrediente prejudicial. Velas feitas com 100% de cera natural contêm ingredientes de maior qualidade. As suas fragrâncias provêm de óleos essenciais, em vez de serem quimicamente feitas.



Vamos falar de opções saudáveis e ecológicas?


A cera de abelha é uma substância secretada pelas abelhas, proveniente dos favos de mel das colmeias. Embora as velas de cera de abelha não sejam velas vegan, porque são de origem animal, elas são renováveis ​​e sustentáveis.


A cera de abelha é uma substância secretada pelas abelhas, proveniente dos favos de mel das colmeias.
Fotografia: Liya Zerya Konuş/Pexels

A maioria dos fabricantes de velas trabalha com produtores de cera de abelha de origem certificada e segue-se por práticas cruelty free.


As velas de cera de abelha têm inúmeras vantagens: são 100% naturais e livres de químicos e parafinas, libertam iões que purificam o ar, queimam de forma homogénea (não libertando fumo), têm uma chama mais clara, um excelente aroma a mel e maior duração de tempo de queima.


A vela de cera de abelha é o tipo de vela menos processada industrialmente dentro das velas naturais e é também 100% biodegradável (o único inconveniente é não ser vegan).


A cera de soja é feita do óleo de soja que endureceu à temperatura ambiente. É renovável (porque não depende de petróleo bruto, já que é uma cultura), não é tóxica e é um produto vegan. A cera de soja é uma cera vegetal que provém dos grãos de soja. O óleo é extraído e hidrogenado para que solidifique à temperatura ambiente. 


Ao contrário do petróleo, a soja é um recurso renovável e ecologicamente sustentável. Além disso, após a extração do óleo da soja, a parte restante dos grãos pode ser utilizada para a alimentação animal. Outra das características desta cera é que a sua queima produz um óleo que pode ser utilizado para massagens, pois a sua temperatura é de apenas alguns graus acima da temperatura do corpo.


Além disso, a cera de soja queima lentamente (sem fuligem) e, porque é feita a partir de óleos vegetais, tem um cheiro natural adocicado durante a queima (sem nenhum aroma adicionado). É também um excelente difusor de aromas, podendo ser combinada com fragrâncias ou óleos essenciais.


Apesar das inúmeras vantagens, não nos podemos esquecer que a indústria da soja pode contribuir para a desflorestação, já que a produção mundial de soja aumentou significativamente nos últimos 20 anos. Uma das principais vítimas desse aumento foi a floresta amazónica e outras áreas da América Central.

A cera de soja é feita do óleo de soja que endureceu à temperatura ambiente.
Fotografia: Mathilde Langevin/Unsplash

A cera de coco é extremamente clara, inodora e com uma queima sem fumo, sendo uma boa opção, vegetal e não poluente. Tem uma composição 100% vegetal, sem emissão de gases tóxicos, além de um suave cheiro a coco. Tem a desvantagem de ser bastante mais cara do que a cera de soja e, como é uma cera muito macia, precisa de ser misturada com outras ceras, como parafina, cera de abelha ou cera de palma.


Como estamos a falar de opções sustentáveis, temos de deixar de parte as velas de óleo de palma. Apesar de não emitirem gases tóxicos durante a queima e serem compatíveis com outras ceras e óleos vegetais, o óleo de palma é proveniente da palmeira Elaeis guineensis (dendezeiro), e isso levanta inúmeras questões éticas, já que é responsável pela desflorestação de grandes áreas que desequilibram a flora e fauna de vários ecossistemas.


O uso de grandes quantidades de óleo de palma tem contribuído para a desflorestação que ocorre em países asiáticos, como a Indonésia ou a Malásia.


Felizmente, há a consciência de que a produção excessiva de óleo de palma está a dizimar a floresta tropical.


Com várias campanhas a nível mundial, uma iniciativa da Greenpeace ficou na memória e causou grande polémica, levando inclusive à proibição deste anúncio no Reino Unido:




Quer ser sustentável e não prejudicar a sua saúde e a do planeta?


Garanta que as velas que tem em casa não são de parafina, que têm fragrâncias naturais e um pavio de algodão ou de madeira. 

Com a variedade de opções existentes no mercado, tornou-se mais fácil encontrar uma vela perfumada e sustentável. Se o fizer, está a proteger-se a si próprio e ao Planeta durante o processo e a criar uma atmosfera aconchegante e saudável na sua própria casa.


Sem substâncias nocivas, dá-se a si e à Terra mais espaço para respirar.


Mogando Now! - Artigo de Catarina Pereira


Artigo de Catarina Pereira


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